ARTIGO: A periferia e a pandemia

ARTIGO: A periferia e a pandemia

jul 11, 2020

Moradores da periferia de Porto Alegre estão entregues à própria sorte. No momento mais difícil que vive a nossa sociedade, com números alarmantes de vítimas da Covid-19 (e que aqui no Rio Grande do Sul nem estamos perto do ápice), vemos uma população sem apoio do poder público.

Milhares de porto-alegrenses nem chegaram a receber o auxílio emergencial, que de emergencial tem apenas o nome. Pessoas se aglomerando em filas de banco em busca do direito. As cestas básicas ofertadas por entidades estão rareando, e as da Prefeitura, ninguém viu. A cidade e as pessoas que vivem nela pedem socorro.

A pandemia vem se espalhando rapidamente pelo Brasil. Está chegando cada vez com mais força no Estado. Entretanto, o necessário isolamento social, única alternativa em nosso contexto para conter o avanço do vírus, ainda é para poucos.

Desta forma, o prognóstico de futuro é terrível para o povo da Capital que há muito tempo não cuida de quem é pobre. Aqui a tônica se tornou atacar, cortar direitos, ao invés de promover ações para reduzir e eliminar a pobreza. As políticas públicas de Assistência Social estão sendo destruídas, e as poucas oportunidades de renda foram sendo eliminadas pela gestão Marchezan Júnior (PSDB). Uma verdadeira tragédia humanitária, somada à criminalização da pobreza como é o caso de catadoras e catadores de material reciclável e aqueles guardadores de veículos que há décadas estabeleceram relações de confiança, simbolizadas em diversos casos na entrega das próprias chaves para entrar no condomínio e recolher o resíduo reciclável ou no procurar vaga para estacionar.

A pandemia tem também um lado de crueldade em relação às mulheres: aumentaram os casos de feminicídios e agressões, enquanto se reduziram as denúncias, o que aponta para a subnotificação. Abro espaço para ressaltar a importância da campanha Máscara Roxa nas farmácias gaúchas, criando um canal importante para as mulheres vítimas de violência.

Em nossas andanças pelas comunidades de Porto Alegre conhecemos muitas mulheres chefes de família, muitas puxando os carrinhos para recolher o sustento da família. Mulheres batalhadoras que merecem melhores perspectivas. Como uma jovem mãe, de 23 anos, que sonha em trabalhar com reciclagem. Um sonho que não conseguia realizar por falta de vagas nas creches para que ela pudesse deixar as crianças. Uma realidade que ela enfrentava ainda antes da pandemia, imagina como estará agora…

Este ano será mesmo emblemático. Pandemia, desemprego, crise política e econômica, dezenas de milhares de mortes. Mas também deve ser um ano de renovação. Teremos mais uma chance de mudar a cara da nossa cidade. É o momento de escolher lideranças comprometidas com toda a cidade e com todas as pessoas que vivem aqui. Como Porto Alegre já fez em outras oportunidades sem medo de ser feliz.

(*) Vereador de Porto Alegre (PT)

Publicado originalmente no Sul21