SUA MAJESTADE: O CARRO!

SUA MAJESTADE: O CARRO!

set 19, 2014

Reflexão sobre um modelo de mobilidade urbana
(texto do Coletivo Cidade mais Humana, publicado no jornal Mundo Jovem)

 

Você já se perguntou por que existiam ruas numa época em que não existiam carros? Ou, então, como seriam as coisas se pudéssemos dizer às crianças “vão brincar na rua” e ficássemos seguros de que não seriam atropeladas? Ou, ainda, se desse pra cruzar a rua na faixa “de segurança” sem ter que ficar olhando de um lado a outro “esperando a vez”? Quando falamos em mobilidade urbana logo nos vem à cabeça a imagem de congestionamentos (de automóveis). Mas, afinal, o que mais envolve este tema que tem afetado com tanta força a vida nas cidades, o dia a dia das pessoas e a agenda dos governos?

Ao longo da história humana, muitos foram os vilões e tiranos que impuseram sua vontade perversa, causando maldades, colocando em risco e ameaçando a vida de pessoas. Paradoxalmente, apesar de ser inanimado, percebemos que o atual vilão e tirano das cidades, da qualidade de vida e do meio ambiente, tem sido o automóvel.

O Século XX foi o século dos carros¹. Ascendido ao status de maior sonho de consumo, ideal de liberdade, ápice de poder econômico e até de potência sexual, o automóvel, a força do motor e a velocidade tornaram-se absolutos no imaginário e desejo das pessoas. Ganhou ares de divindade – o deus-carro não poderia encontrar limites em seu caminho de dominar os corações, as mentes e as ruas. E até os “acidentes de trânsito²” passaram a ser naturalmente aceitos pela sociedade: uma estatística, um mal necessário, a fatura cobrada por sua majestade para continuar seu reinado.

(I)mobilidade urbana

Com a crescente concentração das pessoas nas cidades e a expansão de bairros para cada vez mais longe dos centros comerciais – de trabalho e consumo – milhares de bilhões em recursos foram investidos para (tentar) garantir o sonho e desejo plantado do vaivém diário de centenas de milhões de pessoas através do uso de um veículo privado, particular, individual e motorizado.

Passou-se, inclusive, por um momento em que houve nítida divisão social e econômica entre a população: quem tinha versus quem não tinha um carro. O tempo passou, a economia mudou, o carro popular nasceu, os seminovos surgiram, o bolso engordou, o sedentarismo surgiu e, até mesmo sem ter um centavo no bolso, foi possível chegar a pé numa concessionária de veículos e sair dela acelerando de carro! Com isso, bem, basta olhar pra qualquer avenida da cidade às 7h30 ou às 18h pra saber o resultado de um sonho que virou pesadelo. O monstro urbano é o horário do rush.

Talvez não se pudesse imaginar que o caos deste modelo carrocêntrico de (i)mobilidade urbana pudesse alcançar tantos absurdos. Centenas de quilômetros de congestionamento dentro de uma só cidade. Automóveis planejados para alcançar enormes velocidades transitando em médias próximas a andar a pé em horários de pico. Mais de mil quilos necessários para deslocar uma só pessoa num extremo desperdício de energia. Ruas barulhentas e degradadas no cenário urbano, ceifando vidas ao preço da velocidade.

Mas a tirania de sua majestade, o carro, foi muito além da dominação do desejo e das mentes humanas. As partículas emitidas pela queima de combustível fóssil, pelo desgaste de pneus, dos componentes de freio, do óleo na pista, etc., tomam conta dos pulmões, encobrem a pele, são levadas pela chuva das ruas até os rios e chegam às nossas torneiras, invadem nossa circulação sanguínea e estão por toda a parte! Uma divindade onipresente!

Destarte, dentro de cada automóvel geralmente habitado sozinho por uma pessoa, sem o devido exame de consciência, o credo e a certeza são sempre os mesmos: a culpa da tranqueira são os outros. Este modelo está esgotado. Mas talvez seja mais fácil livrar as ruas do carrocentrismo que o nosso pensamento.

 

Sugestão de Filme:

Sociedade do Automóvel (2005), Documentário brasileiro sobre grandes cidades, o trânsito e a nossa vida.

Direção: Branca Nunes e Thiago Benicchio. Duração: 39 minutos

 

¹ Atribui-se ao presidente Washington Luís o lema “governar é abrir estradas”, ainda presente nas políticas de muitos gestores carrocentristas

² No Brasil, o Mapa da Violência 2013 aponta que em 2011 foram 43.256 mortes em acidentes de trânsito. Segundo a OMS, elas são a 1ª causa de morte na faixa dos 15 a 29 anos e a 2ª entre 5 aos 14 anos

 

 

MOBILIDADE EM CIDADES MAIS HUMANAS

Vale o ditado: “muitas pessoas pequenas, em lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudarão a face da terra”. Cada pessoa pode fazer alguma coisa! A equação de uma grande mudança é simples: + Amor – Motor = \o/

A sociedade humana está passando por um período de enormes mudanças de paradigmas, alguns dos quais, presentes e influenciando a vida das pessoas por 100, 200 anos ou mais! Um destes paradigmas refere-se ao secular modelo de mobilidade das pessoas centrado no uso cotidiano do veículo particular, individual, privado e motorizado – um modelo esgotado e esgotante.

Somente no Brasil, dezenas de milhares de pessoas morrem, todos os anos, nos tais “acidentes” de trânsito. Os prejuízos são extensos e, quando não irreparáveis, envolvem complicações respiratórias, obesidade e sedentarismo, emissão de poluentes, impactos no aquecimento global, degradação das relações humanas e da paisagem urbana, perigo para crianças, idosos e pessoas com dificuldades de locomoção no uso das ruas, etc.

Direito à cidade

O momento exige urgente mudança de atitude pessoal e coletiva, de coragem e revisão das práticas cotidianas. Todo mundo quer mudanças, mas poucos querem mudar. A conquista de novas cidades exige a reconquista dos espaços públicos para as pessoas e não para os carros. A hora de pedestres, bicicletas e transporte público sustentável é agora! Trata-se do direito de acesso à cidade. E cada pessoa pode contribuir para a reversão da lógica perversa e caótica de mobilidade insustentável a que chegamos:

• Adotar o pedestrianismo e o uso da bicicleta como meios viáveis e práticos de mobilidade sustentável. A bicicleta é um vetor privilegiado de melhoria nas condições ambientais, nas relações sociais e padrões de qualidade de vida mais elevados nos centros urbanos. Enquanto o uso insustentável do automóvel produz prejuízos individuais e coletivos até pra quem não possui carro, a bicicleta, ao contrário, produz benefícios individuais e coletivos;

• Inserir discussões críticas e sistemáticas sobre mobilidade nas salas de aula, com abordagem na mudança de comportamento e superação do pensamento “carrocentrista”. As crianças e adolescentes são sujeitos ativos e privilegiados de mudanças culturais. Educar para o uso correto e sustentável do espaço público é fundamental para o avanço da democracia, da cidadania e de novas relações socioambientais;

• Adotar o uso de meios coletivos, públicos ou não motorizados de transporte e a intermodalidade. Compreender a distorção do “conforto particular” do automóvel às custas do malefício social de seu uso. Coisas simples, como deixar o carro a algumas quadras para ir a pé até o trabalho ou o colégio, já fazem diferença;

• Exigir que os poderes públicos criem, dentro dos órgãos de trânsito, setores com a tarefa exclusiva de organizar ações e políticas em prol da mobilidade não motorizada, medidas de redução de velocidade e restrição ao uso do veículo automotor particular;

• Participar das discussões sobre o uso democrático e sustentável das ruas: nos grandes centros urbanos, as vias para automóveis ocupam em média 70% do espaço público e transportam apenas de 20% a 40% dos habitantes¹. Os investimentos públicos que sustentam este modelo não são democráticos devem ser redirecionados para a melhoria e padronização dos passeios públicos, sistemas cicloviários seguros, eficientes e interligados às redes de transporte público, campanhas de educação massiva para garantir a prioridade de pedestres e pessoas em bicicletas prevista na legislação.

 

¹ Liane Born, Vá de Bicicleta, Revista Vida Simples, Edição 68, ano 6, nº 7, p. 26, 2008.


Apoio bibliográfico
:
Nowtopia – Iniciativas que Estão Construindo o Futuro Hoje. Chris Carlsson. Tomo Editorial, 2014.
Global status report on road safety, 2013 – Supporting a decade of action. World Health Organization.
Brasil não motorizado – coletânea de artigos sobre mobilidade urbana. Antônio Carlos M. Miranda e João Carlos Cascaes, Curitiba/PR, Ed. LaBMOL, 2013.
A bicicleta e as cidades – Como inserir a bicicleta na política de mobilidade urbana. Instituto de energia e meio ambiente, 2010.
Morte e vida de grandes cidades. Jane Jacobs, Tradução: Carlos S. Mendes Rosa. Martins Fontes, São Paulo 2001.