Sucatear a Carris serve a quem? (por Marcelo Sgarbossa)

Sucatear a Carris serve a quem? (por Marcelo Sgarbossa)

nov 7, 2017

Artigo do vereador Marcelo Sgarbossa (PT)*

Por que uma empresa pública de transporte de passageiros, que já foi a melhor do Brasil e servia de parâmetro de qualidade para avaliar serviços das empresas privadas, está sendo deliberadamente sucateada? A que interesses serve não ter mais referência real para balizar valores de tarifa e qualidade nos ônibus que atendem 900 mil usuários dia na capital gaúcha?

Estas perguntas devem ser feitas diante do notável desmonte da Companhia Carris Porto-Alegrense e questionar se o lucro de grupos econômicos deve prejudicar uma cidade inteira.

Em 20 dias de outubro, a empresa Carris deixou de transportar cerca de meio milhão de pessoas. O motivo é a falta de ônibus em condições de circular pelas ruas da Capital. Nesse período, a companhia perdeu de arrecadar quase R$ 2 milhões, o que corresponde a não ter nenhum coletivo circulando por dois dias seguidos.

Segundo denunciam servidores da Carris, em torno de cem dos 358 ônibus da empresa estão parados por falta de peças e de manutenção. O sucateamento da frota é confirmado por quem utiliza os coletivos da companhia diariamente.

Chamam a atenção os indícios desse sucateamento intencional, com o objetivo de fragilizar ainda mais a Carris. Basta notar que a negligência se acentuou neste primeiro ano de governo Marchezan Júnior (PSDB). A direção deixou de assinar deliberadamente mais de 30 contratos, dificultando o funcionamento da empresa, inclusive deixando de arrecadar recursos dos contratos de publicidade nos painéis traseiros (busdoor), ampliando ainda mais o déficit gerado pela má gestão.

A precarização dos serviços tem como objetivo justificar a entrega das linhas à iniciativa privada e desmontar a empresa. Não atuam como gestores, mas como liquidantes.

Quem acompanha as manifestações do prefeito não se surpreende, já que os ataques à Carris começaram antes mesmo da posse. Marchezan nunca escondeu o desejo de privatizar a companhia. Uma empresa que completou 145 anos e que, quando gerida de forma eficiente, nas gestões do PT na Prefeitura, foi considerada a melhor empresa de transporte do País, com certificados de eficiência e qualidade em diferentes itens.

Desde então, não há planejamento estratégico na empresa. A sequência de gestões negligentes gerou a derrocada gradual da companhia, que era referência em pontualidade, conforto e bom atendimento.

A maior virtude e necessidade de uma empresa pública de transporte são os parâmetros de qualidade para que a Prefeitura possa balizar o funcionamento e os custos de operação, que refletem diretamente na tarifa.

A Carris é responsável por 22% da frota da Capital e transporta 27% do total de passageiros. Além dela, outras 12 empresas privadas concessionárias transportam cerca de 900 mil pessoas por dia. Por isso, é estratégico o Executivo ter o conhecimento das variáveis que influenciam no processo de reajuste tarifário, evitando distorções e superfaturamentos.

Porém, as recentes administrações resultaram em déficits contábeis e funcionários aterrorizados, buscando legitimar o discurso de que o setor público não funciona bem. Denúncias de corrupção, excesso de cargos em comissão (CCs), tomadas de financiamentos imprevidentes e abandono de programas de gestão estratégica subtraíram um conjunto de conquistas, obtidas com dedicação e rigor por todo o quadro da empresa. Apontamentos frequentes do Tribunal de Contas do Estado confirmam a sequência de problemas causados pelas últimas gestões.

 

 

O que se observa é um criminoso desmonte programado da Carris. Em 2015, por exemplo, cinco linhas rentáveis da companhia foram repassadas para empresas privadas. Em contrapartida, linhas deficitárias foram assumidas pela estatal. Como foi o caso da tradicional e cobiçada linha Auxiliadora, em uma evidente ação de descapitalização da Carris.

Ao longo deste ano, a companhia ficou sem presidente por vários dias. A desastrosa relação com o corpo de funcionários se acentuou. A situação é tão crítica que servidores denunciaram, à Comissão de Direitos Humanos da Câmara, a ocorrência de assédio moral coletivo por parte da direção da Carris, que comprovadamente tentou impedir uma reunião na sede da associação, constrangendo participantes, fiscalizando a assembleia e descumprindo o princípio constitucional do direito à livre reunião.

Na forma como vem sendo administrada a empresa, dificilmente terá valor para ser vendida com o patrimônio sucateado e um déficit intencionalmente acentuado. Não houve qualquer ação para a recuperação da Carris pelo governo Marchezan. Pelo contrário. Os destemperos e disparates do prefeito chegaram ao extremo, com acusações levianas e insinuações de improbidades, o que revoltou o quadro de trabalhadores.

Não é a Carris e seus funcionários, nem seus usuários, que devem sofrer os reflexos dos avanços do interesse financeiro sobre o patrimônio público. É dever dos gestores evitar escolhas prejudiciais aos cidadãos. A comunidade deve exigir do prefeito, que alardeia ser bom gestor, que promova ações para recuperar a Carris, que tem o carinho e o reconhecimento da população e é patrimônio histórico da nossa Capital. O que é público pode e deve funcionar bem.

Isso é possível, como já foi demonstrado nas gestões do PT. A Carris tem todas as condições para voltar a ser uma empresa eficiente, equilibrada financeiramente e com funcionários estimulados, prestando bons serviços por preços justos. Queremos de volta aquela empresa modelo que aprendemos a admirar. Para isso, é preciso vontade política voltada à cidadania e não ao mercado, controle social e competência na gestão, com maior participação dos funcionários. Porto Alegre merece mais!

 

* Artigo publicado no jornal Sul 21

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